Os infelizes bastidores da base brasileira

Os infelizes bastidores da base brasileira

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“A gente vendia vassouras, e ganhava 25 centavos. O que são 25 centavos? Uma fortuna, dava para comprar dois pães”, Danilo Silva, atleta do Valencia.

Carlinhos saiu da Bahia para tentar a sorte em São Paulo. Ainda muito novo, foi contratado pelo Desportivo Brasil, clube empresa sediado em Porto Feliz. Carlinhos morava em uma casa apertada, de periferia, quando seu empresário bateu à porta com uma proposta milionária da Alemanha, praticamente obrigando-o a aceitá-la*.

Sem amigos, sem agentes, sem família: Carlinhos estava sozinho na Alemanha (Foto: Reprodução)
Sem amigos, sem agentes, sem família: Carlinhos estava sozinho na Alemanha (Foto: Reprodução)

Danilo tinha potencial. Passou pelo sub-15, pelo sub-17 e pelo sub-20. Do Vasco e da seleção brasileira. Volante de marcação, fora dos gramados sempre pedia a seu empresário coisas para sua família, especialmente sua mãe, que morava em uma comunidade pobre do Rio de Janeiro. Seu empresário atendia. E o tinha nas mãos.

Mosquito era a estrela da base do Vasco, e porque não da seleção brasileira. Velocidade, habilidade e finalização faziam dele um atacante completo. Conviveu com problemas extracampo. Seu pai é um dos mais perigosos traficantes do Rio de Janeiro. Vivia entre a cadeia e a liberdade. E a carreira do jovem estava entregue a seu padrasto, que dizia ser um ótimo “comerciante”.

Dankler era um zagueiro e tanto. Xerife da base do Vitória. Seria profissional em breve, nome para a seleção brasileira principal. Mas seu empresário achou que deveria ganhar muito mais quando a proposta de renovação chegou. Ficou quase um ano parado.

Thiago e Dankler: de origem pobre, buscando o sucesso no futebol (Foto: Reprodução)
Thiago e Dankler: de origem pobre, buscando o sucesso no futebol (Foto: Reprodução)

Thiago é grande amigo de Dankler. Segundo o zagueiro, era um dos mais habilidosos jogadores que já viu jogar. Mas Thiago tinha dificuldades para se concentrar. Não focava na carreira, mas sim em aproveitar o pouco dinheiro que ganhava com o futebol. Estava se perdendo.

As cinco histórias mostradas no documentário “Mata Mata” (2014, Alemanha) são distintas e reais. E te farão pensar duas vezes antes de criticar aquele garoto da base do seu time. Antes de repetir os chavões, como “a molecada da base de hoje é muito mimada”.

A culpa não é dos garotos. É da atual organização do futebol de base brasileiro. A maioria dos clubes não tem condições de oferecer estrutura para seus atletas, grande parte de origem humilde. Surgem os empresários, autointitulados “pais” de seus agenciados.

Essa figura paterna, no entanto, é uma falácia. Com a falsa promessa de brigar pelas melhores condições possíveis, os agentes brincam com o futuro dessas pessoas. Estão interessados em comissões. Em publicidade. Sabem que estão diante de uma indústria multimilionária.

"Mata Mata" mostra os bastidores das categorias de base (Foto: Reprodução)
“Mata Mata” mostra os bastidores das categorias de base (Foto: Reprodução)

O documentário mostra isso de forma sutil. Como a hesitação de Danilo e sua mãe diante de Stefan Kraus, empresário alemão que cuida de sua carreira. Como a tristeza, a solidão e o desespero no olhar de Carlinhos, completamente abandonado no frio de Leverkusen.

Hoje, dos cinco jogadores mostrados no documentário, apenas Danilo, jogando no Valencia, conseguiu algum sucesso. E se Carlinhos fosse ouvido por seu agente e não tivesse ido para a Alemanha tão cedo? E se Dankler tivesse aceitado a renovação e assim não tivesse perdido um ano importante de seu desenvolvimento? E se Thiago contasse com alguém para orientar sua carreira?

Nada garante que conseguiriam ir além. Mas a reflexão é válida. Principalmente para os mandantes de nosso futebol, que, como o empresário de Carlinhos, sempre dizem que está tudo bem.

*Nota da redação:

Wilson Farias, empresário de Carlinhos, entrou em contato com o Alambrado para esclarecer que foi contrário à forma com que o jogador trocou o Desportivo Brasil pelo Bayer Leverkusen. Segundo ele, a decisão partiu da Traffic, dona dos direitos econômicos e federativos do atleta.

O agente ainda afirmou que Carlinhos não ficou sozinho durante sua estada na Alemanha, tendo sido acompanhado por ele, por seu irmão (e sócio, também agente) e pelo pai do atleta, que revezavam ao longo da passagem de seis meses do lateral pelo futebol europeu.

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